É muito comum sabermos pelas “rádios-peão” dos corredores do mundo corporativo que “fulano puxou o tapete de sicrano”. A conversa miúda durante a pausa para o cafezinho revela os detalhes do ocorrido, que na maioria das vezes vira um prato cheio para as fofocas de bastidores.

É certo que, infelizmente, a cultura brasileira, tão afeita ao “jeitinho” e à banalização de atos imorais, também é condescendente com os recursos escusos que são utilizados no universo do trabalho. Mas não está na hora de dar um basta?

Não pode se achar normal “sugar conhecimento” para depois usá-lo em proveito próprio, se valer do “canto da sereia” e assim prometer mundos e fundos para alguém que se saberá demitido em pouco tempo ou ainda “induzir ao erro”, “técnicas” comuns quando se pretende puxar o tapete de alguém…

Mas, e nós, os espectadores dessa lambança corporativa, como reagimos? Quais recursos os demitidos têm para conseguir voz, senão para se  manter no cargo – embora demissões façam parte do jogo – mas para dar sobrevida à sua reputação, num mercado que induz a deslizes, mas não perdoa deslizes, a despeito do fato de que somos “Humanos, Demasiado Humanos” (Nietzsche).

E o que dizer da “política da terra arrasada”, quando injúrias, calúnias e difamações são divulgadas contra desafetos ou oponentes profissionais com o intuito de acabar com a carreira de quem me atrapalha?

Em nome de uma pseudo imparcialidade e alegando que estas são questões meramente “profissionais”, ficamos mudos e, assim, coniventes com atitudes que podem minar profundamente a autoestima de uma pessoa e derivar até mesmo em casos de depressão e ansiedade ou outros problemas emocionais. Esquecemos que por trás de um profissional existe um ser humano, com anseios, dúvidas, tristezas, alegrias, sonhos e angústias.

E por parte dos espectadores dessa perversa dinâmica, fica a dúvida: podemos separar o profissional do pessoal quando se trata de caráter? Antes de sermos excelentes profissionais não deveríamos pensar em sermos também excelentes seres humanos?

Muito se fala em testes de personalidade, talento e aptidões para o mercado, mas quase não se discute o quanto uma pessoa ávida por poder e dinheiro pode minar e desagregar relacionamentos dentro de uma equipe, afinal não existe avaliação ou teste de caráter, e lealdade e confiança parecem palavras em desuso.

Além disso, algumas culturas organizacionais estimulam a prática predatória em nome de uma eficácia em resultados, um conceito absolutamente questionável numa era em que a construção do propósito de uma empresa deve pairar sobre todos os alicerces que trazem reputação para o negócio, seja ele qual for.

Muitos são os questionamentos que se fazem nesta seara, num mundo que aprende a cada dia e a passos miúdos lidar com os problemas de natureza relacional que surgem no dia a dia das pequenas, médias e grandes corporações. Aos poucos, a “Inteligência Negocial” vai tomando corpo até chegar o dia em que a máxima “não tente competir comigo: eu também quero que você ganhe” vire um mantra dentro das empresas.